|
de Eurípides
Versão livre sobre tradução de Maria Helena da Rocha Pereira
Em Tebas, são três as mulheres, Agave, filha de Cadmo, o fundador da cidade, e as suas irmãs - Ino e Autónoe - que levam para a montanha o côro das Bacantes, não sem antes terem recusado o Deus. Assim fala Diónisos no prólogo da peça: “Por isso eu as sacudi para fora das suas moradas, tomadas de delírio, e, de espírito enlouquecido habitam nas montanhas. E forcei-as a usar as minhas insígnias orgiásticas, e a toda a raça feminina dos Cádmios, a quantas mulheres havia, fi-las saír de casa desvairadas (...)." A presa caçada por Agave é o seu próprio filho, a quem ela, na sua loucura, arranca os membros. O filho, Penteu é também um rei que, tal como sua mãe, recusou reconhecer Diónisos como um Deus. De facto, na peça de Eurípides, as Bacantes são o instrumento da punição de Penteu. É através das mulheres que o deus se manifesta. A loucura Dionisíaca é acompanhada por uma espécie de inversão das actividades dos dois sexos e a respectiva aparência. Enquanto Penteu, depois de ter troçado da aparência feminina do deus, cegado por Diónisos, aceita disfarçar-se de bacante para espiar a mãe em plena montanha, as Bacantes, no seu frenesim, levam a melhor sobre os homens brandindo contra eles as insígnias de Diónisos.
O que está em questão através deste mito e por intermédio das mulheres é portanto a reversibilidade dos domínios e a permeabilidade de um em relação ao outro. A loucura Dionisíaca é um operador, não um fim em si mesmo.
O carácter selvagem, testemunhado pelos ritos – a corrida na montanha (a oribasia), o sacrifício do animal caçado e despedaçado ainda em vida (o diasparagmos) – exprimem apenas uma das facetas de Diónisos. Se é verdade que, para aqueles que recusam “ver” o deus, a experiência termina tragicamente, o seu reconhecimento, pelo contrário, traz consigo a alegria e a paz. E se tal experiência acontece de forma privilegiada com as mulheres, a sua revelação, ao fim e ao cabo, destina-se a todos.
|