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Um enredo surpreendente sobre as relações
de uma adolescente com o seu tio por afinidade, um homem de cerca
de 40 anos. Embora seja uma abordagem ao abuso de menores (sem que
o acto sexual alguma vez se concretize), “Como Aprendi a Conduzir”
é uma história de amor e de contradição
ética e moral que nos faz questionar os limites do certo
e do errado.
Paula Vogel afirma sobre esta sua obra: “ Recebemos grandes
provas de amor de pessoas que nos fazem mal”. A protagonista
(Li’I Bit) recebe grandes lições de vida de
quem a magoa profundamente. O elemento mais importante deste texto
belo, perturbador e muito divertido, é a força, a
energia para a vida, que a “Pequenina” acaba por encontrar
a partir de uma relação que, ao longo dos anos, a
poderia destruir. Vogel quer demonstrar que chega uma altura na
vida em que é necessário fazer contas com o passado
e encontrar alguma paz: “Muitas pessoas não conseguem
nunca ultrapassar a raiva que sentem contra os abusos de que foram
vítimas em crianças e na adolescência”
e essa raiva irá envenenar todas as suas relações
no futuro, destruindo as suas vidas. Como é possível
viver com a memória de um acontecimento traumático?
Como é possível reconhecer alguma coisa de bom em
algo tão perturbador? Como se poderá perdoar o transgressor
e perdoar-se a si mesmo? Como se aprende a conduzir a vida?
“Como Aprendi a Conduzir” é, sobretudo, uma lição
de amor e de compreensão, para se conseguir sobreviver.
A peça é também, de forma cativante, cómica
e terna, um olhar sobre o núcleo familiar, os seus abismos,
desvios e transgressões, apesar do amor.
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