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Noite de Reis ou o que quiserem é uma comédia de Shakespeare onde “nada do que é na realidade, é” (Ato III, cena 1).
Esta é, talvez, uma das primeiras peças da história do teatro Mundial onde o cross-dressing, obrigatório na era Isabelina, é utilizado para uma reflexão, avant-la-lettre, da construção do género. “A rapariga (Viola) disfarça-se de rapaz, mas anteriormente, o rapaz havia-se disfarçado de rapariga… O disfarce é duplo, como se representasse em dois níveis diferentes: o rapaz disfarça-se de rapariga que se disfarça de rapaz. A ação desenrola-se na Ilíria, onde a ambiguidade é o princípio tanto do amor como da comédia. Todos falam de amor, um amor violento e impaciente. Três seres esgotam todas as formas do amor. Olívia ama Cesário, Cesário ama o Duque, o Duque ama Olívia, mas não podemos esquecer que Cesário é Viola. O triângulo Shakespeariano sofre uma transformação: há um homem e duas ou antes, um homem, uma rapariga e uma mulher. Para Olívia, Viola é um rapaz efeminado: para o Duque, ela é uma rapariga arrapazada. Para Olívia, o andrógino shakespeariano faz-se de rapaz. Para o Duque, faz-se de rapariga. Pela terceira vez, é uma mutação do mesmo triângulo. Olívia e o Duque estão simultaneamente enamorados de Cesário-Viola, do rapaz-rapariga… A Ilíria é o país do delírio amoroso… Acaba-se a Comédia. Que desejam? Um rapaz ou uma rapariga? Os atores despem os figurinos – eis consumada a terceira metamorfose do triângulo amoroso – Rrestam apenas um homem e dois rapazes. Mas definitivamente, o que era aparência nesta comédia de equívocos? Só há uma resposta: o sexo. O amor e o desejo passam do rapaz à rapariga e da rapariga ao rapaz”. (Jan Kott, em Shakespeare, nosso contemporâneo). Nesta encenação resolveu-se ir mais longe. Os papéis masculinos são quase exclusivamente representados por mulheres. No entanto, é um homem que interpreta a personagem António que tem uma paixão homossexual por Sebastião, neste caso, representado por uma mulher… A Ilíria é, definitivamente, o país do delírio amoroso, ou seja: das metamorfoses do sexo…
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