COMUNICADO abril 2018

Fernanda Lapa [Directora Artística da Escola de Mulheres] ©João Miguel Rodrigues

 

 

 

COMUNICADO

O subfinanciamento crónico de algumas Companhias é uma forma perversa de as asfixiar

A Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, criada em 1995 por um conjunto de Mulheres de Teatro com o objectivo de alterar o papel de subalternidade a que a mulher vinha a ser reduzida no panorama teatral português, foi, desde o primeiro momento, relegada para o estatuto de “minoritária”!

No ano da criação da Companhia, não obtivemos qualquer resposta por parte do Secretário de Estado da altura (Santana Lopes). Foi graças ao convite da Professora Yvette Centeno à Encenadora e actual Directora da Companhia, Fernanda Lapa, que pudemos apresentar no Auditório ao ar livre da Fundação Gulbenkian “As Bacantes” de Eurípides. Passaram 23 anos desde essa data, apresentámos 65 diferentes espectáculos (alguns dos quais premiados). Produzimos dois Festivais, (Cabeças Falantes com 17 espectáculos e Quatro Quartos Mostra de Teatro de Curta Duração com 4 espectáculos de novos autores e criadores). Promovemos Encontros de Escritoras e um Encontro Nacional de Autoras de Teatro. Revelámos e encenámos Dramaturgas fundamentais para a História do Teatro (Paula Vogel, Caryl Churchill por ex.). Promovemos 5 Encontros de Criadores das várias Artes – Cruzamento das Artes. Criámos Seminários de Escrita Teatral. Co-produzimos espectáculos com Espanha e França onde nos deslocámos a vários Festivais. Realizámos um Docudrama, Caçadores de Anjos, sobre o flagelo da Prostituição e o Tráfico de Mulheres. Produzimos vários workshops. Criámos o ciclo de leituras encenadas, Da Voz Humana, com 29 sessões onde apresentámos autores, também eles criadores, emergentes e consolidados, na voz de Intérpretes e Músicos de prestígio. Em 2009, apetrechámos (sem qualquer apoio da CML, da Dgartes ou outra instituição qualquer) a Sala de Teatro do Clube Estefânia, sempre aberta para receber estruturas de criadores nacionais ou estrangeiros. Desde essa data já acolhemos mais de 60 espectáculos, entre eles de Espanha e Colômbia. Ainda este ano iremos receber estruturas do Brasil e do Chile. Temos co-produzido regularmente diversos espectáculos com os Teatros Nacionais, Teatros Municipais, entre eles o São Luiz e o Constantino Nery, e ainda o Teatro da Trindade. No concurso de 2012 obtivemos apoio quadrienal (2013/2016) num montante miserabilista e inferior a qualquer outro concedido nesse ano. No concurso actual voltamos a estar na cauda dos apoios Quadrienais. Nunca obtivemos uma classificação tão baixa, consequência de avaliações do Júri que não avalia da mesma forma algumas estruturas altamente classificadas. As despesas fixas da Companhia rondam, actualmente, 47 mil euros anuais – salário do produtor, salário mínimo de uma das directoras, (a Directora Artística trabalha pro bono) segurança social, seguros, renda do espaço de Teatro e do armazém alugado à Gebalis, electricidade, água, limpeza, substituição de materiais perecíveis, telecomunicações, avença dos contabilistas, etc., etc.. No concurso actual foi-nos proposta a atribuição de apoio para o primeiro ano no montante de 64.000 euros, abaixo do valor atribuído em 2015, e 70.000 anuais para o 2º, 3º e 4º, 275 euros acima do valor de 2016 e 2017.

Para alguém que conhece o universo dos espectáculos de Teatro (e o Secretário de Estado da Cultura conhece-o, afirmando que é um profissional desta área) pode, de boa fé, acreditar ser possível concretizar as produções que nos propusemos apresentar pagando condignamente a todos os profissionais com quem teremos de trabalhar? Pode, de boa fé, acreditar que é possível combater a precariedade, sendo as estruturas de criação artística um dos principais empregadores neste sector? Pode, de boa fé, acreditar que não serão sacrificadas componentes artísticas, relegando-as para o desemprego, como é o caso dos cenógrafos, dos designers, dos músicos, dos desenhadores de luz, dos produtores e de todo um conjunto de profissionais ligados a esta área? Pode, de boa fé, acreditar que o trabalho voluntário crónico, e obrigatório, é dignificante? Pode, de boa fé, acreditar que é possível projectar um futuro, que é possível abrir acordos com outras entidades, com os nossos pares ou, acreditar que é possível receber com dignidade os nossos pares oriundos de outros países?

No decurso do primeiro trimestre de 2018, a Escola de Mulheres desenvolveu todas as actividades agendadas na candidatura que submeteu a concurso, nomeadamente, o CICLO A MULHER E A ESCOLA DE MULHERES, por ocasião do 23º Aniversário da EMOT, lançando aqui o catálogo com todo o percurso da companhia. Este ciclo teve 3 dias de actividades gratuitas, onde se realizaram colóquios com os temas o Dia Internacional da Mulher e a situação da Mulher no Teatro, A Prostituição e o Tráfico de Mulheres e A Mulher na Prisão e O Teatro. Estão a ser, também, cumpridos todos os acolhimentos celebrados com diversas entidades que fazem parte do programa a concurso, nomeadamente a ACERT. Apesar de ainda estar a decorrer o processo do concurso ao apoio sustentado para o teatro, e de não existirem certezas quanto aos seus resultados finais, esta companhia irá honrar os acordos firmados com os seus pares, para este semestre, prestando, assim, uma parte do serviço público que se propôs executar para o ano 2018.

A Escola de Mulheres solidariza-se com todos aqueles que por critérios expressos por um júri, alheado de um passado e de todo um percurso, exclui companhias de mérito comprovado e com provas dadas, efectuando também propostas de redução substanciais aos financiamentos, já por si escassos, de tantas outras em todas as diferentes áreas a concurso.

Eu, Fernanda Lapa, directora artística da Escola de Mulheres, na profissão desde 1963, encenadora desde 1972, premiada, medalhada, homenageada e outros “…adas”, que não servem para NADA, sinto-me profundamente HUMILHADA.

Lisboa, 4 de Abril de 2018

Fernanda Lapa
Directora Artística da Escola de Mulheres

Os comentários estão fechados