|
Três rosas amarelas*
Duas peças de Birn Friel, mestre irlandês de um teatro que vem da memória, da revisão infinita dos territórios da ilusão e da decepção. Duas peças habitadas por personagens de Tchekov, interpretadas por Sandra Faleiro e António Lagarto, dois dos mais reconhecíveis actores portugueses.
Não tenho mais texto para acrecentar ao discurso destas personagens. Ouço-as; persigo-lhes as razões; abraço-as de vez em qando, para que se acalmem. Todos os dias partilhamos a memória do que foi, e será sempre, revisitado de forma mais elaborada e próxima da perfeição (da verdade) que cada um escolhe para si próprio. ("Mas, é claro, essas categorias - pública e privada, enganosa ou autêntica - nunca são tão distintas como achamos.")
Conversamos sobre a consistência das suas vulnerabilidades. Do vidro moído em Uma Peça Mais Tarde e do sangue em O Jogo de Ialta... "e sobre como lidar com a situação".
À vez, brindamos às inverdades de Andrei; aos terrores agorafóbicos de Sónia; aos jogos de Gúrov; à inocência perdida de Anna; ao Vânia; às irmãs, especialmente à Macha; à Natacha e aos seus filhos; ao fiel Nicolai; ao signor Puccini; à pobre Mimi; ao quase sagrado Ástrov; à bela Elena; a Ialta, Sacalina, Moscovo, Taganrog, Pargolovo - e a todas as partidas e chegadas; às cadelas mimadas. E a "essa beleza única que a juventude nos concede":
Imbuído da esperança que o autor nos confere, faço de conta que sou o guardião temporário deste teatro conservador dos bens de família. Faço de conta que, envelhecendo um século, posso continuar à espera de nunca mais morrer. ("Mas a aproximação a um desfecho já começara e nós estávamos agora a viver o período mais complicado, mais assustador e mais doloroso de todos.")
Nuno Carinhas
*Título de um conto de Raymond Carver sobre a morte de Tchekov |