Agamémnon ou o Crime

Foram os pais que lhe destinaram o marido.
Este, depois de sacrificar uma filha de ambos às suas ambições de homem e de guerreiro, deixou-a só, com a dor, três filhos pequenos e a responsabilidade da casa e das terras.
Quando ele regressa ao fim de dez anos, rico e heróico, ela mata-o com um cutelo.
Esta é a história de Clitemnestra.

Antes que seja desferido o golpe derradeiro teremos, porém, oportunidade de
conhecer Agamémnon, o marido.
E nós, cujo coração está todo com Clitemnestra; nós, cujos sentidos se abriram ao seu “saber de experiência feito” e à sua dor fria; nós, que através das suas próprias palavras, aprendemos que “o adultério é muitas vezes uma forma desesperada de fidelidade”, quando estávamos já prontos a pensar que o homem de quem se fala, comandante vitorioso da guerra de Tróia, será talvez um bruto sanguinário ou um qualquer patife, sentimos, pelo contrário, que alguém nos convidou a sentar para a fruição tranquila de um discurso de sensibilidade extrema.
É a versão de Agamémnon.

Em qual das sabedorias ficamos? Na de Clitemnestra? Na de Agamémnon? Fará sentido ter uma única opção? Onde está aqui o feminino, o masculino (questão cara e com tradições no trabalho do grupo Escola de Mulheres, a par da recorrente utilização de temas clássicos)? Ou será que a resposta não se encontra afinal em nenhuma sabedoria, mas sim na revelação final, fantasmática, de Clitemnestra, aliás corroborada por Agamémnon quando este diz: “Só a lembrança do amor pode substituir o amor”.
Para nós, o privilégio de trabalharmos um mito ancestral que se revela cada vez menos clássico e mais disperso no nosso quotidiano dos campos e das cidades, da maneira como o gostamos de fazer, a-presentando-o dum modo activo (e não re-presentando-o, de forma museográfica) pela mão de dois grandes escritores da nossa contemporaneidade, Marguerite Yourcenar (que escreve sobre ela, Clitemnestra) e Yannis Ritsos (que escreve sobre ele, Agamémnon), referências incontestáveis — embora já desaparecidas — das nossas vidas de artistas de hoje.
Ela, para além do resto, a grande estudiosa das letras e da cultura clássica; Ele, o grande poeta, ele próprio grego. Dois textos que não sendo “para teatro” trazem à cena, no confronto das personagens, o confronto entre dois gigantes da cultura contemporânea.
Que os deuses do Olimpo, todos, nos concedam os ventos favoráveis.
Antonino Solmer

intérpretes AGAMÉMNON: ANTÓNIO RAMA (T.N.D.M. II) | CLITMNESTRA: FERNANDA LAPA


autoria MARGUERITE YOURCENAR | YANNIS RITSOS
tradução FERNANDA LAPA
encenação ANTONINO SOLMER
cenografia | coordenação técnica e de produção RUI PEDRO PINTO
figurinos LUÍSA PINTO
montagem de banda sonora PAULO CURADO
desenho de luzes CARLOS GONÇALVES
realização do spot promocional CATARINA CAMPINO

Cozinha do Palácio Marim Olhão – Lisboa
de 15 de Março a 15 de Abril, 2001

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