GERTRUDE STEIN E ACOMPANHANTE

Gertrude Stein e Acompanhante ©Margarida Dias 2019

Fernanda Lapa encena a peça de Win Wells que foi buscar o título a Ernest Hemingway: Gertrude Stein and a Companion.

Em cena, um diálogo improvável entre a escritora e poetisa americana Gertrude Stein, já falecida, e a sua companheira de 36 anos de vida, Alice B. Toklas, que a convoca para dar opiniões sobre os seus assuntos preferidos: ela própria, a literatura, a pintura, as artes. As duas personagens interpretam, várias vezes, outras personagens que com elas conviveram, como o irmão de Gertrude, Leo, Picasso, Mabel Dodge, entre outras. A peça recua e avança desde o primeiro encontro entre ambas até às suas mortes. Mais do que uma peça gay, como tem sido considerada, é um espetáculo sobre uma relação amorosa que nos apresenta personagens marcantes da cultura mundial. A adaptação d’ A Escola de Mulheres tem tradução de Fernando Villas-Boas e música de Nuno Vieira de Almeida, que, em palco, ao piano, comenta a ação com peças musicais do período Modernista e de compositores que conviveram com as duas Stein e Toklas.

19 a 30 junho, quarta a sábado, 21h; domingo, 17h30
Sala Mário Viegas
€12 com descontos
M/12

domingo, 23 junho:
. sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa
. conversa com os artistas após o espetáculo

AUTORIA Win Wells
TRADUÇÃO Fernando Villas-Boas
ENCENAÇÃO, DRAMATURGIA E VERSÃO CÉNICA Fernanda Lapa
ESPAÇO CÉNICO E FIGURINOS António Lagarto
COM Cucha Carvalheiro, Lucinda Loureiro e Nuno Vieira de Almeida (ao piano)

ASSISTÊNCIA DE ENCENAÇÃO Marta Lapa
DESENHO DE LUZ Paulo Santos
FOTOGRAFIA Margarida Dias
MESTRA DE GUARDA-ROUPA Aldina Jesus
ASSISTENTE DE ESPAÇO CÉNICO Jesús Manuel
DIRECÇÃO DE PRODUÇÃO Ruy Malheiro

CO-PRODUÇÃO Escola de Mulheres e São Luiz Teatro Municipal

67ª produção Escola de Mulheres

Reportagem Câmara Municipal de Lisboa
Teaser promocional São Luiz Teatro Municipal

DIGRESSÃO
novembro
22, sexta – Ponte de Lima, Teatro Diogo Bernardes

OS TEMPOS DE FERNANDA LAPA
por YVETTE CENTENO


Foi esta peça, Gertrude Stein e Acompanhante, de Win Wells, que me levou a pensar no trabalho, sempre exemplar, da encenação de Fernanda Lapa, que a entusiasmou, mas por outro a obrigou a um imenso trabalho de depuração e até de algumas correcções de erros de tradução, tudo por amor ao teatro.
Mas Fernanda dedica todo o tempo e atenção que um texto, seja moderno ou clássico, pede e exige. Esse é o seu primeiro tempo: o do trabalho, que com sorte ficará escrito e publicado, da sua dramaturgia, cuidada, inteligente, e por isso tão fiel. É sem dúvida um trabalho de paixão, que envolve também os seus colaboradores: sempre os melhores, que se disponham a partilhar com ela a sua inspiração. Neste primeiro tempo a inspiração, a ideia que surge de momento e resolve alguma dificuldade, é essencial. Cito Agustina Bessa-Luís: “de muito empenho carece a arte…”e é assim mesmo, na arte que se respeita, e no criador que, como estou a ler neste momento, no meu fiel Yi King, que abri ao acaso do dia, como faço às vezes:nº 38, K’ouei /A oposição
A Imagem
Em cima o fogo, em baixo o lago: imagem da OPOSIÇÃO. 
Assim, em toda e qualquer companhia, o homem nobre conserva a sua individualidade.
O homem culto não se deixará tornar igual aos homens cuja natureza difere da sua, por relações e interesses comuns que possa ter com eles, mas conservará sempre em toda a comunidade a sua individualidade própria.

É precisamente isto que verificamos nos tempos de Fernanda Lapa e da sua coerência no trabalho das artes cénicas ao longo já de tantos anos. De tudo o que tenho visto, dos clássicos aos modernos, nunca perdeu a sua individualidade, a sua marca própria, e mais uma vez nesta encenação claramente manifestada.
A bagagem cultural de Fernanda é enorme, e absorvida por muito conhecimento, mundo, convívio (quem pense que se pode fazer teatro, encenando, ou representando, ou criando espaços cénicos adequados e igualmente inspirados sem cultura nem curiosidade de espécie nenhuma, está bem enganado) – e com ela também a sua equipa tem muito, para não dizer tudo, a aprender. E por ser ela quem é, aprende-se com gosto. Sai-se da sua companhia mais “ilustrado”, como se diria nos tempos das Luzes. Aqui precisamos destas luzes, da Razão e da Emoção, que ela contém, mas deixa ainda assim, delicadamente transparecer.
Não me refiro à encenação em que escolhe o delírio orgíaco das Bacantes, de Eurípides, e tanto sucesso teve em 1995. Para a contenção da violência antes evoco as Euménides, de Ésquilo, em que toda a fúria teve de ser contida. Numa das peças a explosão que castiga o orgulho cego,  noutra a mutilação que destrói a exigência de uma vingança justa.
Dirão, Fernanda mantém a sua individualidade, a sua leitura própria destes textos, imortais pela sua carga simbólica e arcaica. É certo, pois não há na sua encenação o que seria tão fácil, de ornamento, sentimentalismo, lição moralista a dar. Fernanda não dá lições, deixa que uma narrativa límpida fale por si e para cada um, quem sabe se de forma diferente.
E como se verifica então nesta peça de duas americanas amigas e amantes, de que se ocupou Wells, numa vida de boémia livre em Paris, a marca própria da individualidade criadora de Fernanda? 
Num primeiro tempo o texto, como já disse, e já em conjunto com a sua equipa o trabalho de enquadramento das personagens e da época – a Paris da boémia dos pintores e poetas vanguardistas,  desafiando os costumes da sociedade e do mundo (um mundo em guerra).
O texto de Wells não estava à altura da depuração desejada. Ornamentos, indicações, floreados, longe do que a encenadora desejaria, e não permitiria que destruísse o seu estilo. Foram meses. Há encenações que são narrativas tão próximas que mais vale ler a biografia em voz alta do que ir ao teatro ver a peça.
Ora aqui entra a minha segunda consideração sobra os Tempos de Fernanda. O texto base é matéria de memória histórica, ficará em arquivo, poderá ser lido e retomado em qualquer momento.
Mas no palco de um teatro, sendo o teatro representado a mais efémera das artes, vive-se ali o momento, é essa a sua eternidade, o tempo é outro. E outras terão de ser as escolhas. Fernanda, nas suas encenações, sublinha a efemeridade, sabemos ao sair que nada mais se repetirá, embora a peça continue o seu tempo em cena, como está agendado. Não haverá dias iguais. Por isso é tão aliciante poder ir uma e outra vez: de cada vez algo de diferente acontecerá, para nosso benefício.
Aquilo que podemos chamar de tempo do palco – sabendo que o palco é a vida – tem de ser apresentado e vivido de modo mais intenso, depurado, subtil. O palco é a vida, mas sublimada numa linguagem outra, numa relação despida, nua como um poema, ainda que de paixão feita. A energia da paixão sente-se, paira no ar, contamina as emoções, de actores e público (é verdade, não deixa de haver catarse, embora haja também distância e de novo podemos referir a individualidade tão especial desta encenadora, que funde Aristóteles e Brecht, num gesto único, como só ela sabe fazer).
Este é o segundo tempo, o mais importante, sem dúvida, mas que não pode dispensar o primeiro, do trabalho muito reflectido sempre e muito intenso.
Do texto ao palco vai por vezes toda uma vida…vivida assim com entrega.
Quem não se entrega  não vive. Adormece e apodrece, mesmo que não dê por isso. Cadáver adiado que procria, como disse Pessoa.
É lição para jovens e velhos prematuros a lição de Fernanda. Num país que precisa muito da máxima energia.



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